Embargo da UE à proteína animal exige virada de chave na rastreabilidade até setembro

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Com prazo final fixado em 3 de setembro, novas exigências do bloco contra o uso de antimicrobianos forçam a cadeia de proteína animal a acelerar a digitalização sanitária e o controle de fornecedores indiretos para proteger mercados premium.

O agronegócio brasileiro de proteína animal enfrenta um de seus maiores testes de conformidade regulatória e sanitária dos últimos anos. Com a proximidade do dia 3 de setembro, data em que entra em vigor o novo embargo da União Europeia (UE) a produtos que não comprovem a ausência de resíduos de antimicrobianos, entidades setoriais e o governo correm contra o tempo para estruturar uma resposta robusta.

Mais do que uma barreira comercial tradicional, a exigência europeia atinge o coração da governança do campo: a rastreabilidade total da cadeia. Para analistas do setor, o episódio funciona como um ultimato para que o Brasil refine seus mecanismos de controle, transformando a pressão externa em um salto de qualidade e transparência.

Mobilização de Gigantes: O Pleito pelo Banimento de Antibióticos

A reação do setor privado foi imediata e drástica. Em um movimento que sinaliza a gravidade do cenário, as principais entidades representativas da proteína animal brasileira com destaque para a atuação conjunta do setor de corte e aves encaminharam um ofício ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O documento solicita o banimento do uso de antibióticos como promotores de crescimento e restrições severas ao uso terapêutico na criação de aves e bovinos.

O foco da União Europeia é mitigar o risco global da resistência antimicrobiana (RAM), exigindo que os importadores demonstrem não apenas a ausência de resíduos na carne, mas que o histórico de manejo do animal seguiu diretrizes rígidas de controle de medicamentos veterinários.

Em entrevista ao Canal Rural, Ricardo Jordão, médico veterinário do Instituto Biológico, alertou que a complexidade do novo cenário vai muito além da burocracia documental:

“A questão não é apenas preencher papéis. Envolve a comprovação factual e auditável do uso de produtos permitidos na pecuária brasileira. O mercado internacional exige precisão sobre quais substâncias foram aplicadas e em que quantidades.”

O Gargalo da Extensão Territorial e as Fragilidades do SISBOV

Como o maior exportador mundial de carne bovina e de frango, o Brasil esbarra em sua própria magnitude geográfica. Atualmente, o Sistema de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos (SISBOV) atende com excelência os nichos de exportação da “Lista Três” (estabelecimentos habilitados para a UE), mas o grande desafio reside na pulverização do fornecimento indireto os animais que passam por diferentes fazendas de cria e recria antes de chegarem à engorda e ao abate.

Especialistas em inteligência de mercado apontam que, para manter o fluxo comercial sem interrupções com o bloco europeu, o redesenho dos processos precisa focar em três pilares analíticos:

  • Instituição do Receituário Veterinário Digital: Digitalização e centralização das prescrições de antimicrobianos, atrelando a compra do medicamento ao Cadastro Ambiental Rural (CAR) ou à inscrição estadual do produtor.
  • Monitoramento Quantitativo: Auditoria de volume de fármacos por lote animal, eliminando o uso preventivo em larga escala.
  • Integração de Plataformas: Cruzamento de dados de trânsito animal (GTAs) com os registros de sanidade para garantir que o histórico do animal seja inviolável da fazenda ao porto.

Impacto Comercial e as Perspectivas de Mercado

A União Europeia historicamente atua como um “balizador de tendências” para o comércio global de commodities. Embora o bloco venha reduzindo sua participação no volume total das exportações brasileiras em favor da Ásia, ele continua sendo o mercado de maior valor agregado (preço por tonelada) e o mais exigente em termos de imagem institucional.

Analistas alertam para o efeito cascata: a perda de conformidade com a UE pode acender luzes amarelas em outros mercados premium, como o Japão, a Coreia do Sul e os Estados Unidos.

Apesar do aperto no calendário, o tom técnico entre as lideranças do agro ainda é de otimismo pragmático. A avaliação geral é de que o Brasil possui a tecnologia e a competência técnica necessárias para a virada de chave. O sucesso da transição até setembro dependerá exclusivamente da velocidade de articulação entre o Mapa e as agroindústrias para blindar a reputação internacional do produto brasileiro.

Fonte: MAPA

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