O nome na urna

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Na era do cansaço mental e do excesso de informação, o eleitorado troca o debate de propostas por atalhos cognitivos e consagra o sobrenome como um patrimônio semiótico autônomo.

Em 1992, Hollywood lançou uma das sátiras políticas mais ácidas e proféticas do cinema moderno. Em Um Distinto Cavalheiro (The Distinguished Gentleman), o vigarista Thomas Jefferson Johnson (interpretado por Eddie Murphy) se elege para o Congresso americano usando uma estratégia semiótica brilhante. Ele candidata-se usando apenas o nome de um deputado idoso e tradicional que acabara de falecer (“Jeff Johnson”). Sem mostrar o rosto, sem santinhos com foto e sem debates, ele vence a eleição amparado puramente pela inércia cognitiva do eleitor, que votou no signo do nome que já conhecia, e não no homem por trás dele.

Mais de trinta anos depois, o Brasil se aproxima das urnas sob a sombra de um fenômeno discursivo idêntico, embora operado de forma perfeitamente institucionalizada. A consolidação de sobrenomes de impacto como os verdadeiros eixos do capital político nacional. Na semiótica clássica, um nome próprio pode deixar de ser apenas a identificação de um indivíduo para se transformar em um conceito abstrato, um reservatório de valores, afetos e rejeições. Se na comédia de Eddie Murphy o nome “Johnson” era o sinônimo esvaziado de “tradição”, na realidade brasileira atual, as pesquisas eleitorais provam que o sobrenome virou uma grife ideológica autônoma, operando sob a lógica que Marshall McLuhan previu para os meios de comunicação de massa, o meio, neste caso, o próprio nome, tornou-se a mensagem.

Nas arenas digitais, saturadas de estímulos e ruídos, o sobrenome político não é apenas um rótulo; ele funciona como um ecossistema estético completo. Ele dispensa o receptor do esforço de preencher lacunas ou decifrar programas de governo; ele entrega uma narrativa pronta, em alta definição, que apela diretamente ao estômago e ao afeto do eleitor. É o império do simulacro, onde o signo descola-se do indivíduo real e passa a existir como uma franquia conceitual autônoma.

A própria disputa de narrativas em torno de Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro reforça essa leitura. O debate político contemporâneo não gira mais em torno de trajetórias individuais, propostas de governo ou experiências administrativas tangíveis. Em grande medida, o que o tribunal das redes discute é quem consegue atuar como o melhor curador ou diretor de arte do signo “Bolsonaro”. O sobrenome passa a funcionar como um ativo simbólico estrito, que centraliza identidade e memória coletiva. Sob essa perspectiva, a sucessão deixa de ser uma escolha clássica entre estadistas e transforma-se em uma complexa disputa pela administração de um patrimônio semiótico construído ao longo de anos de exposição pública e engajamento algorítmico.

É aqui que reside o paradoxo da nossa próxima eleição. No filme de Hollywood, o golpe semiótico funciona até o momento em que o personagem de Eddie Murphy precisa assumir o cargo e colocar o seu corpo físico em evidência, chocando o sistema pela ausência de substância. No tabuleiro brasileiro, o desafio do herdeiro escolhido é o inverso: ele herda o piso robusto de votos garantido pela marca, mas carrega acoplada a ela uma rejeição histórica igualmente expressiva. Na economia da atenção, o voto tornou-se uma moeda de conveniência heurística, votar por associação de marca é instantâneo, enquanto decodificar propostas complexas exige um custo cognitivo que o eleitor exausto não quer pagar.

No entanto, para vencer um segundo turno em um cenário polarizado, esse herdeiro precisará flertar com o eleitorado de centro. E aí o sistema trava. Se moderar demais o tom para reduzir a rejeição, descaracteriza a “estética da indignação” que o próprio sobrenome exige para se manter vivo, correndo o risco de desidratar o signo que o sustenta. O herdeiro torna-se, portanto, um prisioneiro da pureza da sua própria marca. O que o cinema nos ensinou, e que a crueza das urnas confirma, é que na política contemporânea as campanhas ainda disputam candidatos, mas a memória coletiva só consome e consagra as marcas.

Por Hosa Freitas

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