Comissão aprova prioridade para atendimento presencial no CadÚnico e reacende debate sobre exclusão digital nos municípios

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Proposta reconhece que milhões de brasileiros ainda dependem do atendimento humano nos CRAS e CREAS para acessar programas sociais e direitos básicos.

Esse projeto toca em um ponto que muitos municípios sentem na prática, mas pouca gente fala com clareza: a exclusão digital dos mais pobres.

O CadÚnico não é apenas um cadastro burocrático. Ele é a porta de entrada para programas sociais fundamentais, como Bolsa Família, BPC, Tarifa Social de Energia, Minha Casa Minha Vida, entre outros. Quando o acesso passa a depender quase exclusivamente de aplicativo, internet estável ou celular moderno, uma parte da população simplesmente fica para trás.

E é justamente aí que os municípios entram.

As prefeituras, por meio dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e dos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS), são a linha de frente do atendimento social no Brasil. É no município que a realidade aparece sem filtro: idosos que não sabem usar aplicativos, mães solo sem acesso à internet, famílias da zona rural, pessoas com deficiência, moradores de rua e cidadãos que sequer possuem documentação regularizada.

A aprovação da proposta na comissão da Câmara reforça algo importante: tecnologia ajuda, mas não substitui presença humana.

O atendimento presencial permite que assistentes sociais identifiquem situações que um sistema eletrônico jamais enxergaria sozinho. Muitas vezes, durante um simples cadastro, surgem sinais de violência doméstica, insegurança alimentar, abandono de idosos, evasão escolar ou desemprego extremo. O formulário digital coleta dados; o atendimento humano percebe vulnerabilidades.

Outro ponto importante para os municípios é a pressão operacional. Muitas cidades pequenas ainda enfrentam dificuldades estruturais:

  • falta de servidores;
  • internet instável;
  • sistemas lentos;
  • baixa capacitação digital da população;
  • ausência de equipamentos adequados.

Na prática, empurrar tudo para o digital pode aumentar filas invisíveis: pessoas que desistem antes mesmo de conseguir atendimento.

O relatório é acertivo ao defender que o atendimento presencial continue sendo um direito garantido. O Brasil real ainda é muito diferente do Brasil das propagandas de transformação digital.

Além disso, há uma questão estratégica para os municípios: quanto mais atualizado e confiável o CadÚnico, maior a capacidade da prefeitura de planejar políticas públicas. É o cadastro que ajuda a identificar:

  • regiões mais vulneráveis;
  • déficit habitacional;
  • insegurança alimentar;
  • demanda por creches;
  • necessidade de programas de renda e capacitação.

Ou seja: não é apenas assistência social. É gestão pública baseada em realidade.

Também foi importante retirar a obrigação de atualização anual automática. Em muitos municípios isso geraria sobrecarga gigantesca nos CRAS e caos administrativo, especialmente nas cidades menores, que já operam no limite.

No fundo, esse debate revela algo maior: inclusão social não pode depender apenas de inclusão digital. Enquanto o Brasil ainda tiver milhões de pessoas sem acesso pleno à tecnologia, o poder público precisa manter portas físicas abertas. Porque para muita gente, o CRAS ainda é o único lugar onde alguém escuta, orienta e ajuda de verdade.

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