Pacote de estímulos, expansão de crédito e aumento de gastos reacendem temor sobre inflação, dívida pública e pressão sobre juros em ano eleitoral.
A cerca de cinco meses das eleições presidenciais, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou o ritmo de lançamento de medidas econômicas voltadas ao consumo, crédito e transferência indireta de renda. O movimento, que inclui programas de renegociação de dívidas, ampliação de crédito subsidiado e incentivos para setores específicos, já provoca reação crescente do mercado financeiro e de economistas preocupados com a trajetória fiscal do país.
Levantamento da XP Investimentos aponta que o conjunto de estímulos anunciados pelo governo pode representar impacto equivalente a até 1,4 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, cerca de R$ 188,7 bilhões movimentando a economia entre crédito, subsídios e expansão de renda.
Na prática, o governo tenta evitar uma desaceleração mais forte da atividade econômica em meio ao ambiente internacional conturbado, marcado pela guerra no Oriente Médio, petróleo acima de US$ 100 e juros elevados nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, o Palácio do Planalto busca preservar o consumo das famílias de baixa renda e da classe média em um momento politicamente sensível.
Mas, sempre tem um mas, economistas e analistas de mercado e trabalho também alertam que parte das medidas pode ter efeito limitado ou até reverso no médio prazo. Com famílias altamente endividadas e juros ainda elevados, o aumento da oferta de crédito pode não se transformar em crescimento sustentável da economia, mas apenas em ampliação temporária do consumo e da inadimplência. O temor é que o estímulo artificial acabe pressionando fortemente a inflação, juros e dívidas das famílias brasileiras.
Nos bastidores da política, tanto no entorno do Palácio do Planalto quanto entre os técnicos que acompanham diariamente as contas públicas no Congresso Nacional, cresce a avaliação de que o Brasil caminha para uma espécie de “explosão fiscal” em ano eleitoral. A percepção é de que a ampliação simultânea de gastos, subsídios e estímulos de crédito pode se tornar insustentável antes mesmo do processo eleitoral chegar ao fim, especialmente em um ambiente de petróleo elevado, juros altos e desaceleração global.
Entre as medidas recentes estão:
- ampliação de linhas de crédito;
- programas de renegociação de dívidas;
- incentivo para motoristas de aplicativo;
- expansão de crédito consignado;
- estímulos habitacionais;
- e aumento de gastos indiretos via bancos públicos.
Embora parte dessas ações não represente gasto direto imediato do Tesouro, analistas alertam que o efeito combinado pode pressionar inflação, juros e dívida pública nos próximos anos.
O temor central do mercado não é apenas o aumento das despesas em si, mas a deterioração das expectativas econômicas. Quando investidores começam a acreditar que o governo perdeu capacidade de controlar gastos no médio prazo, o impacto se espalha rapidamente. Analistas observam que parte do capital estrangeiro continua migrando para mercados considerados mais seguros, especialmente os Estados Unidos, em meio à combinação entre expansão de gastos, incerteza eleitoral, juros elevados e pressão inflacionária global. O temor não é necessariamente de um colapso imediato, mas de deterioração gradual da confiança sobre a capacidade do país de estabilizar suas contas públicas nos próximos anos.
Economistas ligados ao mercado financeiro e ex-integrantes da equipe econômica de governos anteriores vêm elevando o tom dos alertas. O economista Armínio Fraga afirmou recentemente que o “Brasil corre risco de entrar em uma trajetória fiscal perigosa caso não haja contenção estrutural de despesas após as eleições”.
Já Alberto Ramos avaliou que “o país precisará de disciplina fiscal muito mais rígida a partir de 2027 para evitar deterioração financeira mais severa e perda de confiança dos investidores”.
O pano de fundo desse debate é preocupante. O Brasil já opera com:
- dívida pública elevada;
- juros reais entre os maiores do mundo;
- baixa capacidade de investimento;
- crescimento econômico limitado;
- e aumento contínuo das despesas obrigatórias.
Para parte do mercado, a combinação entre expansão de gastos, ano eleitoral e pressão política sobre juros pode criar um ambiente extremamente delicado para o próximo governo, independentemente de quem vencer as eleições.
Ao mesmo tempo, integrantes do governo defendem que as medidas têm caráter anticíclico e são necessárias para sustentar emprego, crédito e atividade econômica em um cenário internacional adverso. A equipe econômica argumenta ainda que parte relevante das ações ocorre por meio de crédito direcionado e não necessariamente via aumento direto de despesas primárias.
O problema é que o mercado já começa a enxergar um risco maior, o de que a política fiscal passe a contaminar definitivamente a política monetária brasileira.
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