Alta dos atrasos no crédito rural expõe fragilidade financeira no campo, pressiona bancos públicos e reforça preocupação com juros, custos de produção e recuperação judicial no agronegócio.
A Caixa Econômica Federal acendeu um sinal de alerta importante para o mercado financeiro e para o agronegócio brasileiro. O banco estatal admitiu oficialmente que espera uma piora nos níveis de inadimplência da carteira de crédito rural ainda em 2026, cenário que deve pressionar as provisões para perdas e afetar os resultados da instituição ao longo do ano.
A declaração foi feita pela vice-presidente de Riscos da Caixa Econômica Federal, Henriete Sartori, durante apresentação dos resultados do primeiro trimestre. O dado mais preocupante está justamente no crédito rural: a inadimplência acima de 90 dias saltou de 14,09% para 18,29% em apenas um trimestre.
Embora a carteira do agro represente cerca de 5% do total de crédito da Caixa, o avanço dos atrasos já começa a gerar impacto relevante nas provisões do banco. Nos três primeiros meses do ano, a instituição separou R$ 6,51 bilhões para cobrir possíveis calotes — uma alta de 21,7% frente ao trimestre anterior.
O problema, porém, vai muito além da Caixa.
Agro vive efeito retardado da explosão de crédito e dos juros elevados
O que começa a aparecer nos balanços dos bancos é reflexo de uma combinação perigosa construída nos últimos anos: expansão acelerada do crédito rural em 2022, alta histórica dos juros, aumento brutal no custo dos insumos agrícolas e queda nas margens de parte dos produtores.
O próprio presidente da Caixa, Carlos Antônio Vieira, reconheceu que o problema não é isolado da instituição e atinge todo o sistema financeiro.
Na prática, o agro brasileiro entrou em um ciclo mais delicado. Durante os anos de crédito abundante, muitos produtores ampliaram operações apostando em preços elevados das commodities e em expansão contínua da demanda internacional. Mas o cenário mudou.
Hoje, produtores enfrentam:
- custo financeiro elevado;
- fertilizantes e defensivos ainda caros;
- margens comprimidas;
- dificuldades climáticas em algumas regiões;
- retração do crédito privado;
- aumento de recuperações judiciais no campo.
O resultado começa a aparecer diretamente nos balanços bancários.
Mato Grosso concentra pressão financeira
Segundo a própria Caixa, o maior foco atual de inadimplência está em Mato Grosso, principal polo do agronegócio brasileiro.
O dado chama atenção porque Mato Grosso foi justamente um dos estados que mais expandiram produção, financiamento e alavancagem nos últimos ciclos agrícolas. Quando o crédito aperta e a margem cai, o impacto costuma aparecer primeiro nos grandes polos produtores.
Mesmo assim, a executiva da Caixa afirmou que há sinais de “arrefecimento” na curva de crescimento da inadimplência e redução no ritmo de novas recuperações judiciais.
Traduzindo o economês: o cenário ainda é ruim, mas o banco acredita que a pior fase pode estar começando a desacelerar.
Caixa endurece concessão de crédito
Outro ponto importante da fala dos executivos é a mudança de postura do banco na concessão de novos financiamentos ao agro.
A Caixa confirmou que passou a operar com critérios mais rigorosos de risco, privilegiando clientes já conhecidos pela instituição e adotando mecanismos mais conservadores na liberação de crédito rural.
Esse movimento acompanha uma tendência geral do mercado financeiro brasileiro.
Quando a inadimplência sobe, os bancos naturalmente:
- restringem crédito;
- elevam exigências;
- aumentam garantias;
- priorizam clientes considerados mais seguros.
Na prática, isso tende a dificultar ainda mais o acesso ao financiamento para pequenos e médios produtores nos próximos meses.
Governo busca saída para o setor
A fala de Vieira também mostrou que o tema já preocupa diretamente o governo federal.
Sem detalhar medidas, o presidente da Caixa afirmou que existem discussões em andamento dentro do governo para buscar soluções de “equacionamento” para o setor.
O mercado acompanha com atenção porque qualquer deterioração mais forte no crédito do agro pode produzir efeitos em cadeia:
- bancos mais conservadores;
- queda no financiamento da próxima safra;
- aumento do custo do crédito;
- pressão sobre cooperativas e fornecedores;
- desaceleração econômica em regiões agrícolas.
E existe um fator silencioso nesse cenário: o agro continua sendo um dos principais motores da balança comercial brasileira. Qualquer enfraquecimento relevante no setor impacta arrecadação, dólar, atividade econômica e confiança do mercado.
Novo Desenrola mostra preocupação com endividamento geral
Além do agro, a Caixa também revelou números do Novo Desenrola, programa de renegociação de dívidas do governo federal.
Segundo o banco, as renegociações já somam R$ 820 milhões. A exposição potencial da Caixa ao programa chega a R$ 9 bilhões considerando os clientes elegíveis.
O dado reforça outro problema estrutural da economia brasileira atualmente: o elevado endividamento das famílias e empresas em um ambiente de juros ainda altos.
O cenário acaba formando uma combinação delicada:
- famílias endividadas;
- empresas pressionadas;
- agro enfrentando inadimplência crescente;
- bancos elevando provisões;
- crédito ficando mais caro e seletivo.
Para o mercado financeiro, isso significa um segundo semestre de atenção redobrada aos indicadores de inadimplência, especialmente no setor rural.
Da redação
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