Clima, etanol e exportações colocam setor sucroenergético do Triângulo Mineiro no centro das atenções

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Safra recorde de cana em Minas Gerais convive com preocupação sobre clima, preços internacionais e os rumos do mercado de biocombustíveis.

O Triângulo Mineiro vive mais uma temporada de forte movimentação no setor sucroenergético, consolidando a região como uma das principais forças da produção de cana-de-açúcar, etanol e açúcar do Brasil. Municípios como Uberaba, Frutal, Santa Vitória, Iturama e Ituiutaba concentram usinas, áreas de plantio e operações ligadas à exportação e à produção de biocombustíveis, em um momento em que o mercado acompanha de perto os impactos do clima, da demanda internacional e da transição energética global.

A expectativa do setor é positiva. Minas Gerais deve registrar safra recorde de cana em 2026, ultrapassando 82 milhões de toneladas, segundo projeções divulgadas pelo governo estadual e entidades ligadas ao agronegócio. O avanço ocorre em meio ao crescimento da demanda por etanol e ao fortalecimento das políticas de descarbonização, que vêm ampliando a importância estratégica dos biocombustíveis dentro da economia brasileira.

Mas o cenário também exige cautela.

Nos últimos anos, produtores e usinas passaram a conviver com uma combinação cada vez mais delicada entre irregularidade climática, oscilações no preço internacional do açúcar, mudanças no mercado energético e aumento dos custos de produção. No caso da cana, períodos prolongados de seca ou excesso de chuva podem afetar diretamente a produtividade dos canaviais, o teor de açúcar da planta e o rendimento industrial das usinas.

Segundo a assessora técnica da Secretaria de Agricultura de Minas Gerais, Maíra Ferman, o comportamento climático recente ajudou parcialmente no desenvolvimento da safra. “A partir de meados de dezembro, as chuvas se regularizaram e permaneceram em níveis adequados ao longo do desenvolvimento vegetativo da cana-de-açúcar, sem registro de veranicos com impacto relevante sobre a produção”, afirmou.

Mesmo assim, o mercado segue atento ao segundo semestre, período tradicionalmente mais seco no Triângulo Mineiro. Ondas de calor, estiagens prolongadas e incêndios em áreas agrícolas continuam entre os principais fatores de risco para o setor sucroenergético.

Ao mesmo tempo, cresce a tendência de direcionamento maior da produção para o etanol, movimento impulsionado pelo mercado internacional de energia e pela expansão das políticas de descarbonização. Segundo Maíra Ferman, “a tendência é de maior direcionamento da matéria-prima para a produção de etanol, diante das condições de mercado e dos preços internacionais do açúcar”.

Na prática, isso significa que parte importante das usinas poderá optar por produzir mais combustível renovável e menos açúcar, dependendo da rentabilidade do mercado internacional. Esse movimento ganhou força nos últimos anos com o avanço dos CBIOs — Créditos de Descarbonização — e da valorização global de fontes energéticas consideradas mais limpas.

O Triângulo Mineiro ocupa posição estratégica nesse cenário porque reúne produção agrícola, logística, usinas, capacidade industrial e acesso a importantes corredores de exportação. Em várias cidades da região, a cadeia da cana movimenta milhares de empregos diretos e indiretos, além de impactar transporte, comércio, arrecadação municipal e geração de energia.

O setor também começa a enxergar novas oportunidades ligadas ao mercado verde. Além da produção tradicional de açúcar e etanol, usinas ampliam investimentos em bioeletricidade, biogás, biometano e créditos de carbono, inserindo o agronegócio regional em uma nova lógica econômica baseada em sustentabilidade e transição energética.

Para analistas do mercado, o avanço da cana no Triângulo Mineiro mostra que o agro brasileiro passa por uma transformação silenciosa. A produção agrícola deixa de ser apenas fornecedora de commodities e se posiciona cada vez mais como peça estratégica na segurança energética e ambiental do país.

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