Por que apenas 2,6% das lavouras brasileiras estão cobertas pelo seguro rural?

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Enquanto eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes, a maior parte da produção agrícola brasileira continua exposta a perdas bilionárias sem proteção financeira adequada.

O agronegócio brasileiro se consolidou como uma das principais forças econômicas do país. O setor responde por parcela significativa das exportações, sustenta superávits comerciais históricos e movimenta cadeias produtivas espalhadas por todas as regiões. Ainda assim, existe uma fragilidade estrutural que continua preocupando produtores, bancos, seguradoras e especialistas: a baixa cobertura do seguro rural.

Dados discutidos recentemente na Câmara dos Deputados mostram que apenas cerca de 2,6% da área total de lavouras temporárias e permanentes do Brasil está coberta pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). Em 2025, os recursos públicos destinados ao programa atenderam aproximadamente 3,2 milhões de hectares, número considerado pequeno diante da dimensão da agricultura nacional.

A situação chama atenção principalmente porque o país vive uma sequência de eventos climáticos extremos que vêm afetando diretamente a produção agrícola.

Secas prolongadas, geadas fora de época, excesso de chuvas, enchentes, ondas de calor e irregularidade climática passaram a fazer parte da rotina de diversas regiões produtoras. Mesmo assim, a contratação de seguros continua distante da realidade da maioria dos produtores.

O problema começa no custo

Um dos principais obstáculos apontados pelo setor é o valor das apólices.

O seguro rural depende fortemente do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, mecanismo criado pelo governo federal para subsidiar parte do custo pago pelos produtores. Sem essa ajuda, o valor das apólices se torna elevado para boa parte dos agricultores, especialmente médios e pequenos produtores.

Nos últimos anos, representantes do setor passaram a defender que o orçamento destinado ao programa não acompanha o crescimento da produção agrícola nem o aumento dos riscos climáticos.

A própria Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) revisou para baixo as projeções do mercado de seguro rural em 2026 justamente por considerar insuficientes os recursos federais destinados à subvenção.

O clima mudou mais rápido que o sistema

Outro fator relevante é o aumento da percepção de risco por parte das próprias seguradoras.

O crescimento da frequência de eventos climáticos extremos elevou o volume de indenizações pagas nos últimos anos. Isso faz com que algumas regiões passem a ser consideradas mais arriscadas, pressionando preços e reduzindo o interesse das empresas em ampliar cobertura em determinadas áreas.

Nos bastidores do setor, existe uma preocupação crescente de que as mudanças climáticas estejam avançando em velocidade superior à capacidade de adaptação dos mecanismos de proteção financeira disponíveis hoje.

A consequência é um círculo difícil de romper: quanto maior o risco climático, mais caro tende a ser o seguro; quanto mais caro o seguro, menor a adesão dos produtores.

Falta cultura de seguro no campo

Especialistas também apontam uma questão cultural.

Diferentemente de países como os Estados Unidos, onde o seguro agrícola faz parte da estrutura básica de produção e possui forte apoio governamental, muitos produtores brasileiros ainda enxergam o seguro como um custo adicional e não como uma ferramenta permanente de gestão de risco.

Nos Estados Unidos, estima-se que mais de 80% das áreas agrícolas possuam algum tipo de cobertura securitária. No Brasil, mesmo considerando diferentes modalidades de proteção, os índices permanecem muito inferiores.

Essa diferença ajuda a explicar por que eventos climáticos severos costumam provocar impactos financeiros muito mais intensos sobre produtores brasileiros.

Crédito rural entra na discussão

A baixa cobertura também passou a preocupar bancos e agentes financeiros.

Com o aumento das recuperações judiciais no agronegócio, instituições financeiras passaram a pressionar por mecanismos que reduzam o risco das operações de crédito rural.

Nos últimos meses surgiram novas modalidades de seguro vinculadas diretamente às Cédulas de Produto Rural (CPR), buscando proteger tanto produtores quanto financiadores em casos de perdas provocadas por eventos climáticos.

Ao mesmo tempo, projetos em tramitação no Congresso Nacional defendem integrar de forma mais forte o seguro rural às políticas de crédito agrícola, oferecendo juros menores e melhores condições para produtores segurados.

O seguro rural virou questão estratégica

A discussão deixou de ser apenas financeira.

Hoje, especialistas observam que o seguro rural passou a ser tratado como uma peça central da política agrícola brasileira, especialmente diante do avanço das mudanças climáticas e da crescente volatilidade da produção.

Recentemente, o Ministério da Agricultura ampliou mecanismos ligados ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), incluindo incentivos maiores para produtores que adotam práticas agrícolas capazes de reduzir riscos climáticos. Em alguns casos, a subvenção ao seguro poderá alcançar até 50% do valor do prêmio.

A medida mostra uma mudança importante de visão: o seguro rural deixa de ser apenas uma ferramenta de indenização após perdas e passa a ser tratado como instrumento de prevenção, sustentabilidade financeira e adaptação climática.

O desafio dos próximos anos

A pergunta que permanece é simples: como proteger uma das maiores potências agrícolas do mundo com apenas uma pequena parcela das lavouras seguradas?

Enquanto o clima se torna mais imprevisível, cresce a pressão por ampliação dos recursos públicos, fortalecimento do Fundo Catástrofe, modernização dos produtos securitários e expansão da cultura de gestão de risco no campo.

O debate ganha ainda mais importância às vésperas do Plano Safra 2026/2027.

Porque, no fim das contas, não se trata apenas de proteger uma safra. Trata-se de proteger a capacidade de produção de um setor que se tornou estratégico para a economia brasileira.

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