Escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã aumenta o risco de um novo choque inflacionário, pressiona os títulos públicos e derruba as bolsas internacionais. No Brasil, investidores aguardam o PIB do segundo trimestre.
Os mercados internacionais iniciam setembro sob forte aversão ao risco. A escalada do conflito no Oriente Médio elevou o petróleo Brent acima de US$ 92 por barril e provocou uma nova onda de venda de títulos públicos, fazendo os juros globais atingirem o maior nível desde a crise financeira de 2008.
O rendimento médio dos títulos soberanos acompanhado pelo índice global da Bloomberg chegou a 3,72%, maior patamar desde meados de 2008. No Reino Unido, os papéis de dez anos alcançaram 5,25%, enquanto os juros dos títulos japoneses de prazo equivalente chegaram a 3% pela primeira vez desde 1996. Nos Estados Unidos, a taxa do Treasury de dez anos avançou para perto de 4,8%.
O movimento reflete a preocupação dos investidores com uma combinação perigosa: petróleo mais caro, inflação resistente e possível retomada do ciclo de alta dos juros pelas principais economias.
Petróleo amplia risco inflacionário
O petróleo Brent subia 1,90% por volta das 7h34, negociado a US$ 92,21 por barril. A commodity reage à retomada dos confrontos entre Estados Unidos e Irã e ao risco de novas interrupções no Estreito de Ormuz, rota responsável pela passagem de aproximadamente 20% do petróleo comercializado mundialmente.
A circulação de navios na região permanece muito abaixo dos níveis anteriores ao conflito. A Rússia também prorrogou as restrições às exportações de diesel, aumentando a pressão sobre o mercado de combustíveis.
Além de beneficiar empresas produtoras, como Petrobras, a valorização do petróleo encarece transportes, energia e cadeias produtivas. O efeito pode contaminar os índices de preços e obrigar os bancos centrais a manter ou elevar os juros por mais tempo.
Inflação da Zona do Euro acelera
A inflação anual da Zona do Euro avançou de 2,9% em julho para 3,3% em agosto, conforme estimativa preliminar divulgada nesta terça-feira. Foi o maior resultado desde setembro de 2023 e ficou novamente acima da meta de 2% perseguida pelo Banco Central Europeu.
A energia aparece como uma das principais responsáveis pela aceleração. Na Alemanha, a inflação também voltou a subir, reforçando a expectativa de que o BCE poderá elevar os juros.
Nos Estados Unidos, declarações recentes do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, aumentaram as apostas em uma elevação dos juros já na reunião de setembro. O mercado calcula aproximadamente 65% de probabilidade de alta neste mês, diante de apenas 34% antes do discurso de Warsh.
O aperto monetário necessário para controlar os preços, entretanto, aumenta o risco de desaceleração da economia mundial, um cenário particularmente negativo para empresas de tecnologia e outros setores mais dependentes de financiamento.
Wall Street e bolsas europeias recuam
Os futuros de Wall Street operam em queda, com pressão mais intensa sobre o Nasdaq, índice concentrado em empresas de tecnologia. O EWZ, fundo negociado em Nova York que representa as principais ações brasileiras, também recua e antecipa uma abertura negativa para a B3.
| Estados Unidos | Variação |
|---|---|
| Futuros do S&P 500 | -0,52% |
| Futuros do Nasdaq | -0,92% |
| Futuros do Dow Jones | -0,53% |
| EWZ — ações brasileiras em Nova York | -0,97% |
Dados por volta das 7h32.
Na Europa, a combinação de juros elevados, petróleo em alta e inflação resistente provoca perdas generalizadas.
| Mercados europeus | Variação |
|---|---|
| Euro Stoxx 50 | -0,78% |
| FTSE 100 — Londres | -1,04% |
| DAX — Frankfurt | -1,09% |
| CAC 40 — Paris | -0,43% |
Dados por volta das 7h33.
Ásia encerra em queda
As bolsas asiáticas também refletiram a preocupação com os juros, o petróleo e a atividade global. O mercado japonês recebeu pressão adicional do avanço dos rendimentos dos títulos públicos do país.
| Mercados asiáticos | Variação |
|---|---|
| CSI 300 — China | -0,30% |
| Hang Seng — Hong Kong | -0,93% |
| Nikkei — Tóquio | -0,15% |
PIB brasileiro é o destaque doméstico

No Brasil, o principal indicador do dia é o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, que será divulgado pelo IBGE às 9h. A expectativa predominante é de perda de ritmo da atividade econômica depois do crescimento de 1,1% registrado nos primeiros três meses do ano.
Uma desaceleração moderada poderia reforçar o espaço para novos cortes da taxa Selic. Esse cenário, entretanto, depende do comportamento da inflação brasileira e dos efeitos produzidos pela nova alta do petróleo, pelo câmbio e pela elevação dos juros internacionais.
O país entra nesta sessão depois de o Ibovespa avançar 0,99% na segunda-feira, aos 177.418 pontos, completando o nono pregão consecutivo de alta. O índice encerrou agosto com perda de 0,33%, mas ainda acumula valorização de 9,02% no ano. O dólar fechou a R$ 5,18, com queda de aproximadamente 0,3% na sessão e alta de 2,22% no mês.
A Petrobras poderá novamente receber apoio da valorização do petróleo. Vale e as demais exportadoras dependerão do comportamento das commodities e do dólar. Empresas de varejo, construção e tecnologia tendem a enfrentar maior pressão com o avanço dos juros globais.
Commodities
| Produto | Cotação e variação |
|---|---|
| Petróleo Brent | US$ 92,21 — alta de 1,90% |
| Minério de ferro | US$ 99,25 — queda de 0,11% |
Dados por volta das 7h34.
Agenda econômica e política
| Horário | Evento |
|---|---|
| 6h | Zona do Euro divulga inflação de agosto e desemprego de julho |
| 9h | IBGE publica o PIB brasileiro do segundo trimestre |
| 9h10 | Diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino Santos, participa de evento da Zetta |
| 10h | Comissão mista analisa a MP que trata da chamada “taxa das blusinhas” |
| 11h | Estados Unidos divulgam o relatório Jolts de vagas abertas em julho |
| 15h | Presidente Lula participa de reunião sobre apostas esportivas |
| Brasil | Senado analisa matérias relacionadas ao Redata e à indicação para o TCU |
| Exterior | Gabriel Galípolo participa de reunião de bancos centrais do G20 |
Tendências do dia
O mercado brasileiro deverá abrir pressionado pelo cenário externo, mas a divulgação do PIB poderá alterar o rumo dos negócios durante a manhã. Um resultado abaixo das projeções favoreceria a perspectiva de cortes da Selic, enquanto uma atividade mais forte poderia reduzir esse espaço.
A alta do petróleo oferece sustentação às ações do setor, mas amplia os riscos para inflação, câmbio e juros. O dia começa, portanto, com dois vetores em disputa: o possível alívio monetário provocado pela desaceleração doméstica e o aperto financeiro trazido pelo choque internacional.
Fontes: Reuters/IBGE/Agência Câmara
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