Pecuária busca qualidade, redução de custos e novos mercados

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Triângulo Conf reúne cerca de 600 pessoas em Uberlândia para discutir nutrição, inteligência artificial, gestão de resultados e futuro da carne bovina

A quarta edição do Triângulo Conf, realizado nesta quinta-feira (30), em Uberlândia, reuniu produtores, gestores, pesquisadores, fornecedores e especialistas em uma programação voltada aos desafios e às oportunidades da pecuária de corte.

Segundo informações da assessoria do evento o número de participantes superaram as expectativas. Cerca de 600 pessoas estavam inscritas,

Os debates mostraram um setor preocupado em melhorar a qualidade da carne, reduzir custos e encontrar novos mercados. Em uma atividade exposta às variações do boi gordo, dos grãos e do câmbio, a rentabilidade depende cada vez mais da integração entre nutrição, tecnologia, gestão de risco e conhecimento sobre o consumidor.

Inteligência artificial, mercado do boi, agregação de valor, recria intensiva a pasto, terminação intensiva a pasto e comparação de resultados estiveram entre os principais temas abordados.

Nutrição passa a ser decisão econômica

O zootecnista, pecuarista e fundador do Grupo Epigen, Weisler Borges, apresentou questões relacionadas à nutrição animal e à eficiência produtiva.

A alimentação representa uma das maiores despesas do confinamento e influencia ganho de peso, conversão alimentar, tempo de permanência no cocho e acabamento da carcaça. Por isso, a escolha da dieta não pode considerar apenas o preço da tonelada.

Uma ração mais barata pode aumentar o custo final se comprometer o desempenho ou prolongar a permanência do animal no confinamento. O indicador mais importante passa a ser o custo de cada arroba produzida.

Dietas com maior concentração de grãos podem acelerar a engorda, mas exigem adaptação, equilíbrio nutricional e controle rigoroso. Falhas na formulação ou no manejo aumentam o risco de distúrbios metabólicos, desperdícios e perda de produtividade.

Grãos ligam o confinamento ao mercado internacional

O engenheiro-agrônomo Lucas Ribeiro, gerente de Agronegócios e Marketing Estratégico da Agro Ávila, abordou aspectos relacionados à produção e à negociação de grãos.

A Agro Ávila atua na produção de soja, milho e sorgo, recria e engorda de bovinos, processamento de soja e fabricação de composto organomineral. O modelo integra agricultura e pecuária, permitindo que parte da produção abasteça o próprio confinamento.

A atividade exige acompanhamento permanente da Bolsa de Chicago, referência internacional para milho e soja. Entretanto, a cotação externa é apenas uma das variáveis consideradas pelo produtor brasileiro. Câmbio, frete, armazenamento, disponibilidade regional e concorrência entre exportadores, fábricas de ração e usinas também influenciam o valor que chega à propriedade.

A busca por novos fornecedores reduz a dependência de uma única origem. Ingredientes alternativos, como sorgo, torta de soja, caroço de algodão e coprodutos do etanol de milho, podem substituir parcialmente matérias-primas tradicionais.

A troca, contudo, não deve ser orientada apenas pelo preço. Composição nutricional, umidade, digestibilidade, regularidade do fornecimento e distância de transporte também fazem parte do cálculo.

Comparação entre produtores acelera evolução

O consultor global de Serviços Técnicos da Probeef Cargill, Pedro Veiga, apresentou o trabalho de benchmarking desenvolvido com produtores de diferentes regiões.

O Benchmarking Confinamento Probeef reúne dados das propriedades e permite comparar indicadores como peso de entrada, ganho diário, consumo de matéria seca, permanência no cocho, eficiência alimentar e rendimento de carcaça.

Em entrevista ao Regionalzão, Pedro Veiga, explicou que o compartilhamento de informações ajuda o produtor a identificar perdas e estabelecer metas. Segundo ele, em dez anos de evolução do projeto, foi registrado ganho de aproximadamente 7% no desempenho dos animais acompanhados.

A edição de 2026 analisou 2,7 milhões de bovinos, número equivalente a aproximadamente 27% do mercado nacional de confinamento. Em uma década, a base acumulou informações de mais de 11,7 milhões de cabeças e 110 mil lotes no Brasil, na Bolívia e no Paraguai.

Entre os participantes, 95% utilizam algum software de gestão. Nos confinamentos classificados entre os mais eficientes, o índice chega a 100%.

O benchmarking permite que o produtor deixe de analisar apenas o próprio histórico. Uma operação pode apresentar melhora em relação ao ano anterior, mas continuar distante dos índices alcançados por propriedades de estrutura semelhante.

Pesquisa aproxima universidade e campo

Pedro Veiga informou ainda que novas pesquisas estão sendo iniciadas no CEPET, a Central de Experimentação, Pesquisa e Extensão do Triângulo Mineiro, vinculada à Universidade Federal de Viçosa e localizada em Capinópolis.

“A UFV mantém parceria com a Cargill para desenvolver estudos sobre práticas nutricionais e manejo de bovinos”. De acordo com ele a “proposta é testar produtos e estratégias em condições controladas, quantificar os resultados e aproximar a pesquisa científica das necessidades do produtor”. Destacou.

Na avaliação de Veiga essa validação é importante porque tecnologias desenvolvidas em outros países nem sempre podem ser aplicadas diretamente no Brasil. Clima, raças, ingredientes e sistemas produtivos apresentam diferenças que interferem nos resultados.

Mercado do boi exige proteção e planejamento

O cenário de mercado foi abordado por João Figueiredo, head de pecuária e analista de commodities da Datagro.

A decisão de confinar envolve o preço de compra do animal, o custo da alimentação, o tempo esperado de engorda e a cotação prevista para o momento da venda. Mudanças em qualquer uma, dessas variáveis, podem comprometer a margem.

Por isso, ferramentas de proteção de preços, contratos futuros e análise de cenários ganham importância. A gestão de risco não elimina as oscilações do mercado, mas reduz a exposição da propriedade a movimentos inesperados.

Produzir uma arroba com eficiência é apenas uma parte da operação. O resultado depende também do preço pelo qual ela será vendida.

Intensificação também avança nas pastagens

O pecuarista Germano Franco, gestor da Fazenda Nossa Senhora do Carmo, apresentou experiências com recria intensiva a pasto e terminação intensiva a pasto.

Esses sistemas combinam planejamento forrageiro, suplementação e acompanhamento técnico para aumentar o ganho de peso sem utilizar exclusivamente o confinamento tradicional.

A intensificação permite produzir mais em uma mesma área, reduzir a idade de abate e liberar pastagens para outras categorias. O modelo, porém, exige disponibilidade de alimento, controle dos custos e capacidade de gestão.

A programação foi complementada por uma mesa-redonda, gravação do Triângulo Conf Talk, Festival da Carne e espaços destinados à troca de experiências e geração de negócios.

Consumidor também está mudando

A busca por qualidade e eficiência está diretamente ligada às mudanças no consumo de carne bovina. No mercado interno, preço e renda continuam determinando grande parte das escolhas.

Quando o orçamento aperta, o consumidor reduz a frequência, procura cortes mais baratos, compra embalagens menores ou substitui a carne bovina por outras proteínas. Ao mesmo tempo, cresce um segmento disposto a pagar mais por marmoreio, maciez, procedência e certificação.

Famílias menores e rotinas mais aceleradas também ampliam a procura por porções fracionadas, carne moída, hambúrgueres e cortes de preparo rápido.

No mercado internacional, as exigências incluem padronização, rastreabilidade, segurança sanitária, bem-estar animal e controle da origem. China, Estados Unidos, Europa e Oriente Médio procuram cortes e padrões diferentes, obrigando a cadeia a produzir para vários perfis de compradores.

A qualidade desejada pelo consumidor começa a ser construída antes do frigorífico. Genética, alimentação, idade de abate e manejo interferem no produto final.

O Triângulo Conf mostrou que a pecuária está ampliando sua visão sobre o próprio negócio. A pergunta já não é apenas quantos animais podem ser produzidos. O setor precisa saber quanto custa cada arroba, qual carne está entregando e quem estará disposto a comprá-la.

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