Inflação desacelera para 0,07% em julho e volta ao intervalo da meta

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Queda dos alimentos e dos combustíveis conteve o IPCA, mas energia elétrica, passagens aéreas e serviços ainda exigem cautela do Banco Central

A inflação oficial brasileira desacelerou pelo quarto mês consecutivo e registrou alta de 0,07% em julho, informou nesta terça-feira (11) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em junho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) havia avançado 0,16%.

Com o resultado, o índice acumula alta de 3,44% nos primeiros sete meses de 2026 e de 4,44% em 12 meses. A taxa anual caiu em relação aos 4,64% registrados até junho e retornou ao intervalo de tolerância da meta perseguida pelo Banco Central.

A meta de inflação é de 3%, com margem de 1,5 ponto percentual para baixo ou para cima. Isso significa que o limite superior é de 4,5%.

O resultado representa um alívio, mas não encerra as preocupações com os preços. A inflação mensal ficou ligeiramente acima da expectativa de 0,03% apurada entre analistas e ainda apresenta pressões importantes nos serviços, na energia elétrica e em alguns preços administrados.

Inflação desacelera pelo quarto mês

A trajetória do IPCA mostra perda de força desde março. Naquele mês, o índice avançou 0,88%. Depois, caiu para 0,67% em abril, 0,58% em maio, 0,16% em junho e 0,07% em julho.

PeríodoVariação
Março de 20260,88%
Abril de 20260,67%
Maio de 20260,58%
Junho de 20260,16%
Julho de 20260,07%
Acumulado em 20263,44%
Acumulado em 12 meses4,44%

A desaceleração indica que os juros elevados começam a produzir efeitos mais visíveis sobre a economia. Ainda assim, o índice de 12 meses permanece distante do centro da meta e não garante, sozinho, uma sequência automática de cortes da Selic.

Alimentos seguraram o IPCA

O principal alívio veio do grupo Alimentação e bebidas, que caiu 0,67% e retirou 0,14 ponto percentual do índice geral.

A alimentação dentro de casa ficou 1,14% mais barata. Produtos importantes para o orçamento familiar apresentaram quedas expressivas:

ProdutoVariação em julho
Tomate-29,09%
Batata-inglesa-19,59%
Cenoura-14,41%
Café moído-2,45%

O tomate exerceu o maior impacto negativo individual sobre o IPCA, retirando 0,10 ponto percentual do resultado do mês.

A redução está relacionada à maior oferta de determinados produtos e a condições climáticas mais favoráveis. Esse comportamento, entretanto, pode ser temporário, porque os preços dos alimentos permanecem expostos às mudanças do clima e aos custos de produção.

No sentido contrário, o leite longa vida subiu 2,47% e as frutas avançaram 1,20%.

Comer fora ficou mais caro

A queda dos alimentos não foi uniforme. Enquanto a alimentação dentro de casa recuou, a consumida fora do domicílio acelerou de 0,15% em junho para 0,55% em julho.

O lanche subiu 0,76% e a refeição avançou 0,42%.

Essa diferença importa porque a inflação dos serviços costuma reagir mais lentamente aos juros. Restaurantes, lanchonetes e outros estabelecimentos enfrentam despesas com salários, aluguel, energia e insumos, que nem sempre recuam na mesma velocidade dos alimentos vendidos no varejo.

Energia elétrica foi a principal pressão

O grupo Habitação apresentou alta de 0,99% e exerceu impacto de 0,15 ponto percentual sobre o IPCA, o maior entre os nove grupos pesquisados.

A energia elétrica residencial subiu 3,09% e respondeu, sozinha, por 0,13 ponto percentual da inflação de julho. O aumento refletiu reajustes de tarifas em algumas regiões e a vigência da bandeira tarifária amarela.

A bandeira acrescentou R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora consumidos.

Também houve alta de 0,40% nas tarifas de água e esgoto, enquanto o gás encanado apresentou pequena queda de 0,04%.

Combustíveis recuaram, mas passagens aéreas subiram

O grupo Transportes variou 0,05%, resultado da combinação de movimentos opostos.

Os combustíveis caíram 1,44%, contribuindo para conter a inflação:

CombustívelVariação
Etanol-2,26%
Gasolina-1,37%
Óleo diesel-1,22%
Gás veicular-0,08%

Em sentido contrário, as passagens aéreas subiram 11,67%. A alta, embora afete uma parcela mais específica do consumo, foi suficiente para impedir uma queda mais ampla do grupo Transportes.

Planos de saúde também pressionaram

Saúde e cuidados pessoais apresentou alta de 0,40%, com impacto de 0,06 ponto percentual sobre o índice.

Os artigos de higiene pessoal avançaram 0,64%, enquanto os planos de saúde subiram 0,42%. O resultado incorpora gradualmente os reajustes autorizados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar.

Os planos contratados após a Lei nº 9.656/1998 podem ser reajustados em até 5,11% no ciclo iniciado em maio de 2026. Contratos anteriores à legislação tiveram percentuais autorizados de 5,52% ou 6,20%, conforme a modalidade.

IPCA ficou acima da expectativa

Embora o resultado de 0,07% confirme a desaceleração, ficou ligeiramente acima da mediana de 0,03% esperada pelo mercado.

A diferença não é suficiente para alterar completamente o cenário, mas mostra que a inflação ainda não está totalmente dominada. A melhora foi fortemente influenciada por alimentos e combustíveis, componentes que podem oscilar rapidamente.

Para o Banco Central, será importante observar se a desaceleração também alcança os núcleos de inflação e os serviços mais relacionados à demanda, que normalmente apresentam maior persistência.

Resultado favorece novos cortes da Selic

O IPCA de julho reforça a possibilidade de continuidade do ciclo de redução da taxa básica de juros. Na última reunião, o Comitê de Política Monetária cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano.

A ata divulgada nesta terça-feira, porém, manteve uma postura cautelosa. O Banco Central reconheceu a melhora da inflação, mas avaliou que a demanda ainda exerce pressão sobre os preços e que os juros precisarão permanecer em nível restritivo.

O Copom não antecipou sua próxima decisão. O ritmo dos cortes dependerá dos novos indicadores, especialmente inflação de serviços, atividade econômica, mercado de trabalho, expectativas para os próximos anos, câmbio e preços do petróleo.

Em termos práticos, o resultado de julho aumenta a possibilidade de outro corte de 0,25 ponto percentual, mas não sustenta, por enquanto, uma aceleração mais intensa da redução da Selic.

O que muda para o consumidor

A desaceleração do IPCA não significa queda generalizada dos preços. Significa que, em média, eles aumentaram menos.

Para o consumidor, o resultado apresenta efeitos diferentes:

  • alimentos consumidos em casa ficaram mais baratos;
  • combustíveis registraram redução;
  • energia elétrica ficou mais cara;
  • alimentação fora de casa continuou subindo;
  • passagens aéreas apresentaram forte aumento;
  • planos de saúde permaneceram pressionando o orçamento.

A percepção de alívio dependerá, portanto, do perfil de consumo de cada família. Quem compromete uma parcela maior da renda com alimentação doméstica pode sentir melhora mais rapidamente. Já famílias com gastos elevados de energia, saúde e serviços continuam enfrentando pressão.

INPC registra pequena deflação

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que acompanha o custo de vida das famílias com renda de um a cinco salários mínimos, caiu 0,01% em julho.

O indicador acumula alta de 3,50% no ano e de 4,10% em 12 meses, abaixo dos 4,33% registrados no período anterior.

A queda dos produtos alimentícios, de 0,74%, ajudou a produzir a pequena deflação. O resultado é relevante porque o INPC é utilizado como referência em reajustes salariais e benefícios.

Alívio existe, mas ainda é frágil

O IPCA de julho oferece uma fotografia mais favorável da economia brasileira. A inflação perdeu força, retornou ao intervalo da meta e ampliou o espaço para que o Banco Central prossiga com a redução gradual dos juros.

Mas há razões para evitar euforia. O acumulado de 4,44% está apenas 0,06 ponto percentual abaixo do teto da meta. A energia elétrica pressionou fortemente o índice, os serviços continuam resistentes e os riscos externos — especialmente petróleo e conflitos geopolíticos — podem voltar a elevar custos.

O dado melhora o cenário, mas não decreta o fim da inflação. O caminho até o centro da meta continua longo e dependerá de uma desaceleração mais disseminada, que vá além da queda sazonal dos alimentos.

Fontes: IBGE/BC

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