Entre o bolo e o circo, quem ficará com o brioche?

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Com a morte de Odelmo Leão, o tabuleiro político de Uberlândia foi jogado ao chão e uma certeza começa a se impor: prestígio pode deixar herdeiros, mas voto pessoal não entra automaticamente no inventário

Com a morte de Odelmo Leão, o tabuleiro político de Uberlândia não foi apenas alterado. Foi jogado ao chão. Peões, reis, rainhas, bispos, torres e cavalos se espalharam, enquanto uma corte ainda atordoada começa a calcular quem poderá reivindicar o legado. Entre o bolo das homenagens e o circo da sucessão, resta saber como ficará o brioche, essa mistura delicada de poder, memória e interesse público que todos desejam repartir, mas poucos sabem preservar.

Odelmo morreu aos 80 anos quando se preparava para disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Depois de quatro mandatos como prefeito de Uberlândia e cinco como deputado federal, carregava um capital eleitoral construído ao longo de décadas. Em 2016, foi eleito prefeito com 72,05% dos votos válidos. Em 2020, recebeu 70,47%.

Esses números, porém, pertenciam a Odelmo. Não formam um pacote de votos que possa ser entregue a um herdeiro por decisão partidária, familiar ou administrativa.

Voto não entra em inventário

A política brasileira é fortemente personalista. O eleitor costuma escolher mais a pessoa do que o partido, especialmente nas eleições municipais e regionais. Odelmo reunia atributos que não podem ser reproduzidos apenas por fotografia, sobrenome ou declaração de continuidade: história, autoridade, presença territorial, memória administrativa e relação direta com diferentes setores da sociedade.

Isso não significa que seu grupo político tenha perdido toda a força. Permanecem estruturas partidárias, prefeitos aliados, vereadores, lideranças empresariais, relações com o agronegócio e presença institucional. O que desapareceu foi o centro capaz de manter essas forças orbitando em torno de um mesmo projeto.

Sem esse eixo, os peões se espalham.

Uma parte poderá permanecer com o Progressistas. Outra seguirá a deputada federal Ana Paula Junqueira Leão, que contava com Odelmo como principal articulador de sua reeleição. Há também quem se aproxime do prefeito Paulo Sérgio, apresentado em 2024 como o nome da continuidade administrativa. Outros buscarão novos candidatos, novas alianças e novas possibilidades de sobrevivência política.

Existem três heranças diferentes

A disputa pelo legado de Odelmo envolve pelo menos três patrimônios políticos distintos.

O primeiro é o legado administrativo, formado pelas obras, programas e pela maneira como conduziu a Prefeitura. Esse patrimônio pode ser reivindicado pelo atual governo, mas dependerá de resultados próprios. Continuidade sem liderança pode transformar-se rapidamente em comparação e comparação com uma figura dominante raramente é confortável para o sucessor.

O segundo é o legado partidário, composto pela estrutura do PP, pelos aliados regionais e pela rede construída durante décadas. Essa herança pode ser reorganizada, mas tende a provocar disputas internas sobre quem terá autoridade para comandá-la.

O terceiro é o capital eleitoral pessoal. Este é o mais valioso e, ao mesmo tempo, o menos transferível. Muitos eleitores votavam em Odelmo porque confiavam nele, não necessariamente em seu partido, em sua família ou em todos os integrantes de seu grupo.

Sem a presença do líder, esse eleitor fica livre. Pode seguir uma recomendação, dividir-se entre diferentes candidaturas, migrar para a oposição ou simplesmente não escolher ninguém que se apresente como herdeiro.

O risco da herança presumida

Na política, um dos erros mais comuns é confundir homenagem com intenção de voto. A comoção provocada pela morte de uma liderança pode gerar solidariedade e reconhecimento, mas isso não assegura transferência eleitoral.

A tentativa excessivamente explícita de apropriação do legado pode até produzir rejeição. O eleitor percebe quando a memória é usada como patrimônio afetivo e quando começa a ser convertida em ativo de campanha.

Ana Paula possui mandato, trajetória e identidade política próprias, mas enfrentará o desafio de reorganizar uma campanha que tinha em Odelmo seu principal fiador e articulador. Paulo Sérgio controla a máquina administrativa, mas terá de demonstrar capacidade de liderança para além da condição de sucessor. O PP terá estrutura, porém precisará decidir quem fala pelo grupo quando todos acreditam ter herdado uma parte da voz.

Um sistema que perdeu seu centro

O que existia em torno de Odelmo não era apenas um agrupamento partidário. Era um sistema político organizado por sua liderança. Sua ausência altera o equilíbrio entre governo municipal, vereadores, partidos, empresários, lideranças regionais e candidatos às eleições de 2026.

Começa agora uma disputa silenciosa pelo significado da palavra continuidade. Alguns tentarão herdá-la pelo sobrenome. Outros, pelo cargo. Outros, pela lealdade histórica. Mas nenhum desses elementos, isoladamente, garante a preferência do eleitor.

Odelmo deixou um legado político. Não deixou uma escritura determinando quem receberá seus votos.

Entre o bolo das homenagens e o circo das articulações, o brioche continua sem dono. Porque, numa democracia, a última palavra não pertence à corte. Pertence aos peões e, agora espalhados pelo chão, fora do tabuleiro, eles estão livres para escolher caminhos que nenhum dos pretendentes ao legado conseguirá controlar.

Hosa Freitas
Jornalista, consultora e especialista em comunicação institucional. Atua há mais de 30 anos com posicionamento de marca, mídia espontânea e estratégias de reputação.

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