Preferência por títulos ligados à Selic revela aversão ao risco, aumenta o custo do Estado e mantém o crédito caro no país
A dívida pública brasileira está cada vez mais dependente de títulos indexados à taxa Selic. Em junho, esses papéis representavam 49,32% da Dívida Pública Federal, aproximando-se do limite de 50% estabelecido pelo governo para 2026. O estoque total chegou a aproximadamente R$ 9,3 trilhões.
O movimento mostra que investidores estão evitando títulos prefixados de longo prazo e preferindo aplicações protegidas contra juros, inflação e riscos fiscais. Não significa, isoladamente, uma fuga generalizada de capitais para o exterior, mas revela uma fuga do risco e dos compromissos mais longos.
Também há sinais de retirada de recursos estrangeiros. Segundo o Banco Central, os investimentos em carteira no país registraram saída líquida de US$ 600 milhões em junho.
Desconfiança aumenta o custo da dívida
Ao emitir mais títulos indexados à Selic, o governo consegue manter o financiamento da dívida, mas assume uma exposição maior aos juros. Se a taxa permanece elevada, o custo para o Tesouro também aumenta.
O problema ultrapassa as contas públicas. Se o governo oferece juros altos e baixo risco, bancos e investidores exigem remuneração ainda maior para emprestar a empresas e consumidores. Isso encarece financiamentos, restringe investimentos e dificulta a renegociação de dívidas.
O país entra em um círculo vicioso: a desconfiança fiscal eleva os juros cobrados pelo mercado; os juros aumentam o custo da dívida; e o crescimento da dívida alimenta novas dúvidas sobre sua sustentabilidade.
Empresas reduzem investimentos

A combinação de juros elevados, crédito seletivo e consumo mais fraco atinge principalmente as micro e pequenas empresas. Dados da Serasa Experian mostram que o Brasil tinha cerca de 9 milhões de empresas inadimplentes em maio. Desse total, aproximadamente 8,6 milhões eram micro e pequenas.
Com uma parcela maior da receita comprometida por despesas financeiras, as empresas adiam investimentos, reduzem estoques e evitam novas contratações. Algumas aumentam preços para preservar as margens; outras diminuem a produção ou encerram suas atividades.
Famílias perdem poder de compra
O impacto também chega diretamente ao orçamento doméstico. Em junho, 83,7 milhões de consumidores estavam inadimplentes, o equivalente a 51% da população adulta, segundo a Serasa Experian.
A Confederação Nacional do Comércio aponta que 81,6% das famílias possuíam alguma dívida a vencer. As contas atrasadas atingiam 29,9% dos lares, enquanto 12,2% declaravam não ter condições de pagar seus compromissos.
Esse cenário produz uma forma de empobrecimento financeiro. Mesmo quando a renda apresenta algum crescimento, uma parcela elevada do orçamento é consumida por juros, multas e renegociações. Sobra menos dinheiro para alimentação, saúde, educação, moradia e formação de patrimônio.
A mesma engrenagem
Dívida pública, endividamento empresarial e inadimplência das famílias fazem parte da mesma engrenagem. O Estado paga mais para se financiar, o crédito privado fica mais caro, as empresas investem menos e as famílias reduzem o consumo.
A aproximação dos títulos indexados à Selic do limite estabelecido pelo governo é um sinal de alerta. O Brasil continua encontrando compradores para sua dívida, mas está pagando caro pela desconfiança. E essa conta chega ao caixa das empresas, ao cartão de crédito e à mesa das famílias.
Fonte: IBGE/MDH
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