Café dispara, boi enfrenta pressão da China e milho ganha força no mercado interno

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Mercado do agro inicia esta terça-feira com café sustentado pela oferta restrita, pecuária dividida entre escalas confortáveis e novas oportunidades nos Estados Unidos, enquanto soja e milho acompanham clima, câmbio e projeções para as safras brasileira e americana.

O mercado do agronegócio inicia esta terça-feira (25) com sinais distintos entre as principais commodities. O café permanece como destaque de valorização no mercado brasileiro, enquanto soja e milho enfrentam o peso das projeções de grandes safras nos Estados Unidos. Na pecuária, o boi gordo encontra resistência no curto prazo, mas as perspectivas para setembro melhoraram diante da possibilidade de ampliação das vendas de carne brasileira para o mercado americano.

O cenário internacional continua decisivo. A queda do petróleo reduz parte da pressão sobre os custos de energia e transporte, mas a instabilidade geopolítica mantém o dólar e os insumos no radar. Para o produtor, o momento exige atenção não apenas às cotações, mas também às margens, ao custo financeiro e às oportunidades de proteção de preços.

Café dispara e volta a se aproximar de R$ 2 mil

O café foi o principal destaque do fechamento de segunda-feira. O contrato com vencimento em setembro avançou 5,06% na B3, para 441,25 centavos de dólar por libra-peso.

No mercado físico, o café cereja descascado voltou a alcançar aproximadamente R$ 2 mil por saca em Varginha, no Sul de Minas. O movimento reflete a oferta ajustada, a retenção de parte dos estoques pelos produtores e as incertezas sobre o tamanho efetivo da safra brasileira.

O mercado também acompanha as condições climáticas para a próxima florada. Temperaturas elevadas e chuvas irregulares podem aumentar a volatilidade, principalmente se houver precipitações suficientes para estimular uma florada seguida por novo período de seca.

Nesta manhã, entretanto, o café arábica negociado em Nova York apresentava realização de lucros. O contrato de setembro recuava 1,06%, depois da forte valorização registrada na sessão anterior.

A leitura técnica é de um mercado ainda sustentado, porém extremamente volátil. Quem já possui margem positiva pode avaliar vendas escalonadas ou instrumentos de proteção, sem apostar toda a produção em uma única direção de preços.

Soja encontra sustentação no Brasil, mas oferta americana limita ganhos

A soja negociada no mercado físico brasileiro iniciou a semana com preços firmes. O Indicador Esalq/B3 de Paranaguá fechou segunda-feira em R$ 153,86 por saca de 60 quilos, alta de 0,12%.

O suporte vem do câmbio, dos prêmios pagos nos portos e da postura cautelosa dos vendedores. Parte dos produtores evita negociar grandes volumes diante das margens apertadas e dos custos elevados para a próxima temporada.

Em sentido contrário, as projeções para a safra americana limitam uma recuperação mais consistente em Chicago. A análise do relatório de agosto do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos feita pela XP destacou produtividade elevada e migração de área da soja para o milho.

A XP estima que a mudança de área poderá reduzir a produção americana de soja em aproximadamente 1,2 milhão de toneladas. Essa redução oferece algum suporte às cotações, mas ainda não é suficiente para afastar o cenário de oferta global confortável.

O mercado também acompanha a piora das condições das lavouras nos Estados Unidos. A proporção das plantações de soja e milho avaliadas como boas ou excelentes caiu nos levantamentos mais recentes, aumentando a atenção sobre a produtividade efetiva durante a colheita.

No Brasil, a estimativa da Hedgepoint indica produção de aproximadamente 181,7 milhões de toneladas de soja em 2026/2027, praticamente estável em relação à temporada anterior. O crescimento limitado reflete custos elevados e menor rentabilidade.

Milho passa a depender mais do consumo interno

O milho apresenta um cenário de oferta elevada, mas encontra sustentação na expansão da demanda doméstica. O contrato com vencimento em setembro encerrou a segunda-feira cotado próximo de R$ 72 por saca na B3.

A principal mudança estrutural está no consumo brasileiro, que deverá superar 100 milhões de toneladas pela primeira vez. A indústria de etanol de milho responderá por aproximadamente 28,5 milhões de toneladas, consolidando-se como uma fonte cada vez mais importante de demanda.

Esse crescimento reduz a dependência exclusiva das exportações para o escoamento da safra e pode estabelecer um piso mais consistente para os preços em regiões próximas às usinas.

A produção brasileira é estimada pela Hedgepoint em 140,3 milhões de toneladas, enquanto a projeção da Conab está próxima de 143 milhões. As exportações poderão recuar para aproximadamente 41 milhões de toneladas, pressionadas pela concorrência dos Estados Unidos e da Argentina.

Nos Estados Unidos, o relatório do USDA indicou uma ampliação expressiva da oferta. Segundo a análise da XP, a revisão da área e da produtividade acrescentou aproximadamente 26,3 milhões de toneladas à estimativa de produção americana de milho.

O resultado é um mercado dividido: a oferta externa limita as cotações internacionais, mas a demanda brasileira por ração e etanol oferece sustentação ao preço doméstico.

Boi gordo tem pressão no curto prazo e expectativa melhor para setembro

O contrato de boi gordo com vencimento em agosto encerrou a segunda-feira próximo de R$ 344,50 por arroba na B3. No mercado físico, frigoríficos ainda tentam negociar em patamares inferiores, apoiados por escalas de abate relativamente confortáveis e consumo doméstico enfraquecido.

O principal ponto de atenção é a China. A cota anual de carne bovina brasileira autorizada sem tarifa adicional foi preenchida antes do fim do ano. Os volumes que ultrapassarem o limite ficam sujeitos a uma tarifa total de até 67%, reduzindo a competitividade do produto brasileiro.

Na segunda semana de agosto, os embarques brasileiros recuaram para cerca de 8,4 mil toneladas por dia útil, ante 10,5 mil toneladas na primeira semana. A média do mês ficou aproximadamente 26% abaixo da registrada em agosto de 2025.

Apesar da queda no volume, o preço médio da carne bovina brasileira permanece elevado, próximo de US$ 6.140 por tonelada — cerca de 10% acima do registrado um ano antes.

Em contrapartida, o mercado recebeu uma sinalização positiva dos Estados Unidos. Donald Trump anunciou uma cota temporária, com isenção tarifária, para a importação de até 300 mil toneladas de carne bovina. A medida pode abrir espaço para o Brasil compensar parte da desaceleração chinesa.

Por essa razão, analistas veem possibilidade de recuperação da arroba em setembro. O movimento dependerá da confirmação das condições de acesso ao mercado americano, das escalas dos frigoríficos e da disponibilidade de animais terminados.

Açúcar recua e etanol de milho avança

O açúcar iniciou esta terça-feira em queda na Bolsa de Nova York. O contrato de outubro recuava 1,36%, cotado a 17,41 centavos de dólar por libra-peso.

O mercado acompanha a expectativa de maior produção brasileira. A moagem de cana-de-açúcar poderá alcançar 635,5 milhões de toneladas, com produção próxima de 43 milhões de toneladas de açúcar.

No etanol, o destaque continua sendo a expansão do produto feito a partir do milho. A produção poderá alcançar 12,8 bilhões de litros, além de até 39,4 bilhões de litros derivados da cana.

Essa transformação altera a formação dos preços do milho no Centro-Oeste, amplia a demanda regional e aumenta a integração entre os mercados de grãos, energia e proteína animal.

Algodão recua após sequência de valorização

O algodão com vencimento em outubro recuava 1,56% em Nova York, cotado a 86,12 centavos de dólar por libra-peso. O movimento representa uma correção depois dos ganhos acumulados nas sessões anteriores.

O setor acompanha a demanda da indústria têxtil chinesa, o ritmo das exportações americanas e as condições climáticas nas regiões produtoras dos Estados Unidos. No Brasil, câmbio e logística continuam determinantes para a competitividade da pluma.

El Niño aumenta necessidade de proteção

O El Niño já influencia o planejamento das empresas do agronegócio para a safra 2026/2027. O fenômeno pode provocar excesso de chuvas no Sul e períodos mais secos em áreas do Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

Empresas produtoras e processadoras estão ampliando o uso de contratos a termo e mecanismos de proteção. A MBRF, por exemplo, informou que está antecipando parte da proteção de suas compras de soja e milho para reduzir o risco de alta provocada por problemas climáticos.

Para o produtor, a mensagem é clara: preço futuro, custo de produção e produtividade precisam ser analisados conjuntamente. Uma cotação elevada não garante rentabilidade se os insumos, o crédito e as perdas climáticas crescerem no mesmo ritmo.

Mercado futuro do agro

CommodityContratoCotaçãoVariação
SojaNovembro/2026 — B3US$ 27,00 por saca−1,17%
MilhoSetembro/2026 — B3R$ 72,08 por sacaestável
CaféSetembro/2026 — B3441,25 centavos de dólar/lb+5,06%
Boi gordoAgosto/2026 — B3R$ 344,50 por arrobaestável
Café arábicaSetembro/2026 — Nova York373,75 centavos de dólar/lb−1,06%
AçúcarOutubro/2026 — Nova York17,41 centavos de dólar/lb−1,36%
AlgodãoOutubro/2026 — Nova York86,12 centavos de dólar/lb−1,56%

Contratos da B3 referentes ao fechamento de segunda-feira (24). Cotações internacionais consultadas por volta das 7h45 desta terça-feira (25).

Radar do produtor

📌 Café continua sustentado pela oferta restrita, mas apresenta forte volatilidade.

📌 Soja brasileira encontra apoio no dólar e nos prêmios dos portos.

📌 Oferta elevada nos Estados Unidos limita a recuperação de soja e milho em Chicago.

📌 Consumo brasileiro de milho deve superar 100 milhões de toneladas.

📌 Etanol de milho absorverá cerca de 28,5 milhões de toneladas do cereal.

📌 Boi gordo sofre pressão das escalas de abate e da desaceleração das compras chinesas.

📌 Abertura americana pode melhorar o mercado pecuário a partir de setembro.

📌 El Niño exige atenção ao seguro rural, contratos a termo e proteção de margens.

Análise

O mercado do agro começa a mudar de lógica. No milho, a demanda interna ganha peso e reduz a dependência das exportações. Na pecuária, a China continua fundamental, mas o preenchimento antecipado da cota mostra o risco de concentrar vendas em um único destino. No café, a oferta ajustada sustenta os preços, embora a volatilidade torne arriscada a decisão de esperar indefinidamente por novas máximas.

O produtor mais protegido não será necessariamente aquele que acertar o ponto máximo da cotação. Será aquele que conhecer seu custo, preservar margem e distribuir as vendas ao longo de diferentes momentos do mercado.

Fonte: Ibovespa/XP/Notícias Agrícolas

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