Soja recebe apoio da demanda chinesa, milho avança em algumas praças e pecuária acompanha a abertura temporária do mercado americano. Sanções ao Irã, petróleo e fertilizantes aumentam a incerteza para o produtor brasileiro.
O mercado do agronegócio inicia esta segunda-feira (24), dividido entre sinais favoráveis para as commodities brasileiras e riscos crescentes no cenário internacional. Soja e milho encontram sustentação na demanda externa e nas incertezas sobre a produção mundial, enquanto a pecuária ganha uma possível janela de exportação após os Estados Unidos autorizarem a entrada temporária de carne bovina sem tarifa adicional.
O quadro, entretanto, exige cautela. A ofensiva econômica anunciada pelos Estados Unidos contra o Irã pode afetar as exportações brasileiras de milho e a importação de fertilizantes. Ao mesmo tempo, os conflitos nos portos do Mar Negro pressionam os preços internacionais do trigo e aumentam a preocupação com a oferta mundial de alimentos.
Soja mantém sustentação, mas negócios começam a semana cautelosos

A soja brasileira terminou a semana anterior com preços firmes, apoiados pela valorização em Chicago, pelo câmbio e pela demanda chinesa. Os contratos negociados nos Estados Unidos avançaram aproximadamente 3% na semana, depois de levantamentos de campo indicarem produtividade abaixo do esperado em algumas regiões produtoras.
No mercado físico brasileiro, a retração dos vendedores e o interesse das indústrias também contribuíram para elevar as cotações aos maiores patamares desde abril de 2023 em algumas referências.
A demanda chinesa continua sendo o principal fator de sustentação. No primeiro semestre de 2026, a China importou 61,9 milhões de toneladas de soja, das quais 44,5 milhões vieram do Brasil. O país asiático respondeu, portanto, por mais de 70% desse volume brasileiro.
Apesar do cenário favorável, o mercado inicia a segunda-feira com ajustes negativos em algumas praças. As cotações apresentadas pelo Canal Rural mostram a soja a R$ 134 em Balsas, com queda de 0,74%; a R$ 136 em Barreiras, recuo de 0,73%; e a R$ 146,50 em Passo Fundo, baixa de 0,34%. O índice dos portos brasileiros aparece próximo de R$ 155,25.
O comportamento indica realização de lucros e cautela depois da valorização recente, sem representar necessariamente uma reversão da tendência. Demanda chinesa, evolução das lavouras americanas, câmbio e petróleo continuam decisivos para a formação dos preços.
Milho avança, mas relação com o Irã preocupa
O milho aparece entre os destaques positivos desta abertura. As cotações indicam alta de 3,39% em Barreiras, com a saca a R$ 61; avanço de 1,53% em Chapecó, para R$ 66,50; e valorização de 1,47% em Campinas, onde a referência chega a R$ 69.
O mercado recebe suporte das preocupações com a oferta mundial. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos reduziu a previsão de produtividade da safra americana para 180,7 bushels por acre, abaixo dos 183 bushels estimados anteriormente. Mesmo com a ampliação da área colhida, o corte de produtividade reforçou a reação dos preços em Chicago.
Os estoques globais também merecem atenção. Fora dos Estados Unidos e da China, a relação entre estoque e consumo mundial de milho está entre as mais apertadas desde 2001, segundo análise dos dados do relatório de agosto do USDA.
Para o Brasil, entretanto, o maior risco imediato pode estar na relação comercial com o Irã. O país foi o principal comprador do milho brasileiro em 2025, adquirindo aproximadamente 9 milhões de toneladas. O milho representou 67,9% das exportações brasileiras destinadas ao mercado iraniano.
Uma ofensiva financeira dos Estados Unidos que alcance empresas, bancos, seguradoras e transportadoras envolvidos nas negociações com Teerã poderá dificultar pagamentos e embarques. O problema não significa perda automática do mercado, mas aumenta os custos, os riscos jurídicos e a necessidade de buscar compradores alternativos.
Fertilizantes entram novamente no radar
A relação com o Irã também afeta o outro lado da balança comercial. O Brasil depende do mercado externo para praticamente toda a ureia utilizada na agricultura. Parte importante das cargas provenientes do Oriente Médio passa pelo Estreito de Ormuz.
A escalada das sanções pode elevar os preços dos fertilizantes, dos fretes marítimos e dos seguros. Também poderá provocar atrasos nas entregas justamente no período de planejamento da safra 2026/2027.
O produtor precisa observar não apenas a cotação internacional da ureia, mas também o câmbio, o custo logístico e a disponibilidade regional. Uma eventual redução do petróleo não elimina o risco, porque fertilizantes e transporte marítimo respondem também à segurança das rotas e às restrições financeiras impostas aos fornecedores.
Carne bovina ganha janela nos Estados Unidos
A pecuária inicia a semana avaliando a decisão do governo americano de permitir, durante 90 dias, a importação de até 300 mil toneladas de carne bovina destinada principalmente à produção de carne moída, sem cobrança da tarifa adicional fora da cota.
A medida busca reduzir o preço da carne nos Estados Unidos, que acumula alta próxima de 50% desde 2021. Para os frigoríficos brasileiros, a decisão cria uma janela comercial importante e poderá movimentar até US$ 500 milhões, dependendo da participação brasileira nas vendas e das condições efetivas de acesso.
A notícia é positiva para o boi gordo, mas não garante alta imediata da arroba. A China, principal compradora da carne brasileira, já preencheu a cota de 1,1 milhão de toneladas sujeita à tarifa normal. Os embarques que excedem esse limite passaram a enfrentar tributação adicional, o que reduziu o ritmo das exportações brasileiras em agosto.
Na segunda semana do mês, os embarques ficaram em 8,4 mil toneladas por dia útil, abaixo das 10,5 mil toneladas registradas na primeira semana. A média mensal recuou 26% em relação a agosto de 2025. Assim, a abertura americana pode compensar parcialmente a desaceleração chinesa, mas os efeitos dependerão do volume efetivamente comprado.
Café recua com avanço da colheita
O café começa a semana em movimento de correção. No mercado físico, o café duro em Vitória aparece a R$ 1.690 por saca, com queda de 2,31%, enquanto o café fino no Sul de Minas recua 2,07%, para R$ 1.890.
No mercado internacional, os futuros do arábica operam próximos de US$ 3,10 por libra-peso. O tempo mais seco nas regiões produtoras brasileiras favorece a fase final da colheita e melhora a disponibilidade do produto no curto prazo.
A queda, entretanto, encontra limites nos estoques reduzidos certificados na bolsa de Nova York, que permanecem no menor nível em aproximadamente 2,7 anos. Essa combinação, avanço da colheita brasileira e estoques internacionais apertados, deve manter o café sujeito a oscilações expressivas.
Cana-de-açúcar poderá atingir 705,2 milhões de toneladas
A Conab elevou a estimativa para a produção brasileira de cana-de-açúcar na safra 2026/2027 para 705,2 milhões de toneladas. O volume representa crescimento de 4,7% em relação ao ciclo anterior.
O resultado combina aumento de 1,1% na área colhida e avanço de 3,6% na produtividade média nacional. A maior oferta favorece a produção de açúcar e etanol, mas os preços também dependerão da trajetória do petróleo, da demanda internacional e da proporção da cana destinada a cada produto.
Guerra no Mar Negro pressiona o trigo
O trigo ganhou um fator adicional de valorização depois da intensificação dos ataques entre Rússia e Ucrânia aos portos do Mar Negro. Os dois países respondem, juntos, por aproximadamente 30% das exportações mundiais do cereal.
As exportações ucranianas de grãos teriam recuado 75% em agosto, enquanto os embarques russos caíram mais de 50%. A redução da oferta marítima levou o trigo aos maiores preços em quase três anos.
Para o Brasil, importador de trigo, a alta internacional pode pressionar os custos da indústria de alimentos e os preços da farinha, do pão e das massas. O câmbio será determinante para definir a intensidade desse impacto.
Radar do agro
Soja: demanda chinesa e menor produtividade americana mantêm suporte aos preços.
Milho: cotações avançam em importantes praças brasileiras, mas sanções ao Irã ameaçam um mercado estratégico.
Fertilizantes: restrições financeiras e problemas no Estreito de Ormuz podem encarecer ureia, fretes e seguros.
Boi gordo: abertura temporária dos Estados Unidos cria nova oportunidade para os frigoríficos brasileiros.
China: cota preenchida reduz o ritmo das exportações brasileiras de carne bovina.
Café: avanço da colheita pressiona as cotações, enquanto estoques internacionais reduzidos limitam as quedas.
Cana-de-açúcar: Conab estima produção de 705,2 milhões de toneladas na safra 2026/2027.
Trigo: ataques aos portos do Mar Negro elevam os riscos de oferta global.Clima: tempo seco favorece a colheita de grãos, mas exige atenção às pastagens, à umidade do solo e aos incêndios.
Cotações do agro
| Produto e praça | Cotação | Variação |
|---|---|---|
| Soja — Balsas | R$ 134,00/saca | -0,74% |
| Soja — Barreiras | R$ 136,00/saca | -0,73% |
| Soja — Passo Fundo | R$ 146,50/saca | -0,34% |
| Soja — portos brasileiros | R$ 155,25/saca | -0,06% |
| Milho — Barreiras | R$ 61,00/saca | +3,39% |
| Milho — Chapecó | R$ 66,50/saca | +1,53% |
| Milho — Campinas | R$ 69,00/saca | +1,47% |
| Café duro — Vitória | R$ 1.690,00/saca | -2,31% |
| Café fino — Sul de Minas | R$ 1.890,00/saca | -2,07% |
Fonte das cotações: Canal rural/Ibovespa/Reuters
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