Setor produtivo cobra agilidade em rastreabilidade contra uso de antimicrobianos, enquanto ministro André de Paula admite que ciclo do boi adia recuperação do mercado europeu.
A suspensão das importações de proteínas animais e derivados do Brasil pela União Europeia (UE), prevista para entrar em vigor em três de setembro, colocou o agronegócio nacional em estado de alerta. Enquanto entidades do setor produtivo criticam a demora do governo na adoção das exigências de rastreabilidade, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) corre contra o tempo para evitar prejuízos bilionários e impedir que a restrição provoque um efeito cascata sobre outros mercados internacionais.
O ministro da Agricultura, André de Paula, confirmou que a prioridade zero da diplomacia brasileira é garantir que o país seja reincluído na lista de países habilitados pelo bloco europeu ainda neste semestre. No entanto, o próprio ministro fez um alerta realista: embora proteínas de ciclo curto, como frango (45 dias), possam retomar os embarques rapidamente, a carne bovina brasileira não deve voltar ao mercado europeu antes de dois anos.

O nó sanitário e a cobrança do agronegócio
A decisão da UE de retirar a autorização de exportadores brasileiros decorre da alegação de falta de comprovação de controle sobre o não uso de certos antimicrobianos e ionóforos na alimentação e criação do rebanho. A regra europeia foi anunciada em 2019, formalizada em 2023 e teve seu prazo de transição encerrado em 2026.
Lideranças do agronegócio criticam a postura do governo federal, apontando que houve morosidade na implementação de um sistema público e unificado de rastreabilidade do nascimento ao abate (“do pasto ao prato”). Um dos principais gargalos está na fase inicial da pecuária, a criação dos bezerros, onde o histórico sanitário individual do animal muitas vezes se perde antes de chegar ao confinamento.
“Realistar” para depois exportar
Em entrevista recente à rádio Nova Brasil Recife, o ministro André de Paula explicou que a estratégia brasileira foi dividida em duas fases distintas:
- Reabilitação institucional (Primeiro semestre): Travar a batalha diplomática e técnica para que o Brasil volte a figurar na lista oficial de países aptos a fornecer para a UE.
- Adequação da oferta: Ajustar o produto físico às exigências sanitárias do bloco para que as vendas sejam efetivamente concretizadas.
“O que nós estamos brigando é para que sejamos reincluídos na lista. Estar na lista não significa que vão comprar imediatamente, mas que o país está habilitado a fornecer. No segundo momento, tendo o produto nas condições exigidas, voltamos a fornecer carne bovina, aves, pescado, mel e ovos”, pontuou André de Paula.
O esforço envolve uma força-tarefa interministerial que inclui o Ministério das Relações Exteriores, sob o comando do chanceler Mauro Vieira, e articulações diretas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com chefes de Estado europeus.
O risco do “Efeito Cascata” e as barreiras veladas
A preocupação do setor extrapola as fronteiras dos 27 países membros da UE. A regulamentação sanitária europeia serve de parâmetro para um grupo de 10 a 18 países ao redor do mundo. A Noruega, por exemplo, já confirmou que alinhará suas regras às de Bruxelas e suspenderá compras brasileiras a partir de setembro.
Por trás do embate sanitário, contudo, o governo brasileiro e analistas do setor enxergam uma clara barreira não tarifária e protecionismo comercial. Em diversos países europeus, a carne bovina local chega a custar até oito vezes mais do que o produto brasileiro.
Para contornar o impasse, o Brasil estuda usar como alavanca de negociação a reciprocidade comercial na importação de produtos europeus de alto valor agregado, como os vinhos franceses e os azeites espanhóis.
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