Varejista acumula prejuízo bilionário, patrimônio líquido negativo e dívida de R$ 17,3 bilhões; mercados externos começam a semana com viés moderadamente positivo.
A semana começa com as atenções do mercado brasileiro voltadas para o Grupo Casas Bahia. A companhia protocolou um pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, com o objetivo de renegociar uma dívida estimada em R$ 17,3 bilhões e preservar a continuidade das operações.
O processo alcança dez empresas do grupo, incluindo negócios ligados ao comércio eletrônico, à fabricação de móveis e à logística. Segundo a companhia, as lojas e os canais digitais devem continuar funcionando normalmente enquanto o plano de recuperação é negociado com os credores.
A recuperação judicial ocorre apenas dois anos depois de a varejista concluir uma recuperação extrajudicial, homologada em 2024, que envolveu aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas financeiras.
Prejuízo de R$ 10,1 bilhões exige contexto
O Grupo Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, ante perda de R$ 555 milhões no mesmo período do ano anterior. No primeiro semestre, o resultado negativo acumulado chegou a R$ 11,18 bilhões.
A dimensão do prejuízo, entretanto, não representa integralmente uma saída de dinheiro do caixa. Cerca de R$ 9,1 bilhões decorreram de efeitos contábeis não recorrentes, entre eles a baixa de aproximadamente R$ 5,7 bilhões em créditos tributários diferidos.
Desconsiderados esses ajustes, o prejuízo líquido ajustado foi de R$ 978 milhões. O número continua elevado e mostra a deterioração operacional da companhia, mas oferece uma leitura mais precisa do resultado do que a simples referência aos R$ 10,1 bilhões.
O balanço também revelou patrimônio líquido negativo superior a R$ 8 bilhões e capital circulante líquido negativo. A Ernst & Young, responsável pela auditoria independente, apontou incerteza relevante sobre a capacidade de continuidade operacional da varejista.
O que pode acontecer com BHIA3
As ações da companhia, negociadas sob o código BHIA3, encerraram a sexta-feira cotadas a R$ 0,66. Os papéis acumulam queda de aproximadamente 79% em 2026 e superior a 99% em cinco anos.
Como o pedido de recuperação judicial foi apresentado durante o fim de semana, a reação dos investidores deverá aparecer na abertura do pregão desta segunda-feira. A expectativa é de forte volatilidade, possibilidade de leilões e aumento da pressão vendedora.
A recuperação judicial não significa falência nem retirada automática das ações da Bolsa. Entretanto, eleva consideravelmente o risco para o acionista. Os credores têm prioridade sobre os sócios, e o plano pode prever venda de ativos, conversão de dívidas em ações, entrada de novos investidores ou aumento de capital, com possível diluição dos atuais acionistas.
A cotação inferior a R$ 1 enquadra BHIA3 na categoria conhecida como penny stock. A comparação histórica com preços superiores a R$ 400, contudo, deve ser feita com cautela, porque a companhia realizou mudanças em sua estrutura de capital e agrupamentos de ações ao longo do período.
Juros altos atingem o coração do varejo
A crise da Casas Bahia mostra de forma extrema um problema enfrentado por todo o varejo dependente de crédito. Mesmo após a redução promovida pelo Banco Central, a Selic permanece em 14% ao ano, encarecendo o financiamento das empresas e as compras parceladas dos consumidores.
O endividamento das famílias, a inadimplência, a desaceleração das vendas e a concorrência de grandes plataformas digitais aumentam a pressão sobre redes tradicionais.
No caso da Casas Bahia, o problema foi agravado por investimentos elevados em tecnologia e digitalização, dificuldades de captação de novos recursos e uma estrutura financeira que não conseguiu acompanhar a mudança do cenário econômico após o período de juros muito baixos da pandemia.
A companhia fechou 298 lojas como parte do redimensionamento da operação, reduziu o quadro de funcionários e passou a concentrar esforços nas unidades e nos canais considerados mais rentáveis.
Ibovespa tenta interromper sequência negativa
Enquanto a crise da Casas Bahia domina o noticiário corporativo, os mercados internacionais iniciam a segunda-feira com desempenho predominantemente positivo.
Os futuros do S&P 500 e do Nasdaq operam em alta, enquanto o Dow Jones apresenta leve recuo. O EWZ, fundo negociado em Nova York que acompanha uma carteira de ações brasileiras, avança 0,29%.
O sinal externo pode oferecer algum suporte ao mercado brasileiro, mas não garante uma recuperação do Ibovespa. O principal índice da B3 acumula nove pregões consecutivos de queda e continua pressionado pelo ambiente eleitoral, pela saída de capital estrangeiro e pela perspectiva de juros elevados por mais tempo.
Agenda econômica concentra atenção no Focus e no IBC-Br
No Brasil, os investidores acompanham nesta segunda-feira o Boletim Focus, do Banco Central, com as projeções para inflação, crescimento econômico, câmbio e taxa Selic.
Na semana anterior, o mercado havia reduzido a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto de 2026 de 1,99% para 1,98%. A projeção para o IPCA estava em 5,02%, ainda acima do teto da meta, enquanto a expectativa para a Selic no encerramento do ano permanecia em 13,75%.
O Banco Central também divulga o IBC-Br de junho, indicador considerado uma prévia do desempenho da economia. O resultado ganha relevância depois de dados mostrarem perda de força na indústria, no comércio e nos serviços.
Agenda econômica
| Horário | Indicador ou evento |
|---|---|
| 8h25 | Banco Central publica o Boletim Focus |
| 9h | Divulgação do IBC-Br de junho |
| 12h | Gabriel Galípolo participa da 27ª Conferência Anual Santander |
| 13h | Presidente Lula visita navio-sonda da Petrobras na Margem Equatorial |
Mercados internacionais
| Mercado | Variação |
|---|---|
| Futuros do S&P 500 | +0,11% |
| Futuros do Nasdaq | +0,48% |
| Futuros do Dow Jones | −0,17% |
| EWZ | +0,29% |
Dados registrados às 7h39.
Europa
| Índice | Variação |
|---|---|
| Euro Stoxx 50 | +0,27% |
| FTSE 100 — Londres | +0,07% |
| DAX — Frankfurt | Estável |
| CAC 40 — Paris | −0,15% |
Dados registrados às 7h40.
Ásia
| Índice | Variação |
|---|---|
| CSI 300 — China | +1,61% |
| Hang Seng — Hong Kong | +1,34% |
| Nikkei 225 — Japão | +0,74% |
Commodities
| Produto | Variação | Cotação |
|---|---|---|
| Petróleo Brent | +1,04% | US$ 89,44 por barril |
| Minério de ferro | −0,58% | US$ 95,40 |
Dados registrados às 7h41.

Fontes: BC/Ibovespa/Exame/Folha de São Paulo
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