El Niño acende alerta para a safra e aumenta risco de pressão sobre os alimentos

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Fenômeno deve ganhar intensidade a partir de agosto e pode provocar excesso de chuvas no Sul, estiagem em outras regiões e elevação dos custos de produção.

O recuo recente dos preços dos alimentos trouxe algum alívio para a inflação brasileira, mas o cenário climático recomenda cautela. A intensificação do El Niño a partir de agosto aumenta os riscos para a safra 2026/2027 e pode voltar a pressionar os custos de produção e os preços pagos pelo consumidor nos próximos meses.

O alerta não significa que haverá quebra generalizada da safra. Os efeitos do fenômeno variam conforme a região, a cultura e o estágio de desenvolvimento das lavouras. O principal risco está na alteração da distribuição das chuvas: enquanto algumas áreas podem enfrentar estiagens e temperaturas elevadas, outras estarão expostas ao excesso de precipitação, alagamentos e maior incidência de doenças.

A Organização Meteorológica Mundial prevê que o El Niño continue se intensificando e alcance uma condição forte entre agosto e outubro. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, altera a circulação atmosférica e interfere no regime de chuvas em diferentes partes do mundo.

Impactos serão diferentes em cada região

No Brasil, o El Niño costuma provocar redução das chuvas na faixa norte das regiões Norte e Nordeste. A tendência também alcança áreas do Centro-Oeste e do Sudeste, onde períodos de estiagem e veranicos podem comprometer a implantação e o desenvolvimento inicial das lavouras.

Esse risco ganha importância justamente na abertura da safra de verão. A falta de umidade durante a janela de semeadura pode atrasar o plantio da soja e afetar o calendário do milho segunda safra, reduzindo o período disponível para que as culturas se desenvolvam em condições climáticas favoráveis.

No Sudeste, a preocupação também envolve café e cana-de-açúcar. Temperaturas elevadas e chuvas irregulares em fases decisivas do ciclo podem prejudicar a floração, o desenvolvimento das plantas e o potencial produtivo.

O comportamento esperado é diferente no Sul. O El Niño geralmente aumenta o volume de chuvas na região, especialmente durante o inverno e a primavera. Embora a maior disponibilidade de água possa favorecer algumas culturas, o excesso de umidade prejudica trigo e outros cereais de inverno, dificulta a entrada de máquinas nas lavouras e amplia a ocorrência de doenças fúngicas.

Durante a floração, o enchimento dos grãos e a maturação, chuvas persistentes também podem reduzir a produtividade e comprometer a qualidade do produto colhido. O Instituto Nacional de Meteorologia ressalta, entretanto, que a dimensão desses efeitos dependerá da intensidade do fenômeno e da influência das temperaturas dos oceanos Atlântico Tropical e Atlântico Sul.

Pressão começa antes de uma eventual quebra da safra

O impacto do El Niño sobre a inflação não depende exclusivamente de uma redução expressiva da produção. O aumento dos custos pode começar antes da colheita.

Diante de condições climáticas adversas, produtores podem ampliar os gastos com irrigação, defensivos agrícolas, controle de doenças, replantio, alimentação animal, energia, seguro rural e manejo das lavouras. Esses custos percorrem a cadeia produtiva e podem alcançar os preços dos alimentos, das rações, das carnes e dos produtos industrializados.

A valorização das commodities no mercado internacional também pode transmitir pressão ao mercado interno. Culturas tropicais, como café, açúcar, cacau e óleo de palma, estão entre as mais sensíveis às mudanças de temperatura e precipitação associadas ao El Niño.

A agência Reuters informou que episódios fortes do fenômeno historicamente afetaram a produção de commodities tropicais. O risco climático ocorre, desta vez, em um ambiente já marcado por custos elevados de diesel e fertilizantes e pelas incertezas geopolíticas envolvendo a oferta de petróleo.

Alívio recente dos alimentos pode não durar

O IPCA avançou 0,07% em julho, menor resultado para o mês em quatro anos, e acumulou alta de 4,44% em 12 meses. A alimentação no domicílio recuou, favorecida pela queda de itens como tomate, batata, cenoura e café.

O café moído acumulou deflação de 17,2% em 12 meses, a maior redução desde o início do Plano Real. A melhora da oferta ajudou a corrigir parte da alta registrada anteriormente, mas os preços ainda permanecem acima dos níveis observados antes do choque climático que atingiu a produção.

O comportamento mostra como o clima chega ao bolso do consumidor com alguma defasagem. Uma adversidade nas lavouras pode demorar meses para aparecer no varejo, assim como uma safra melhor leva tempo para produzir queda efetiva dos preços.

Por isso, os efeitos do atual El Niño devem ser acompanhados principalmente a partir do último trimestre de 2026 e ao longo de 2027. Não há, neste momento, uma alta inevitável e uniforme dos alimentos, mas o risco climático voltou ao radar da inflação.

Tecnologia e estoques podem amortecer os efeitos

O cenário também apresenta fatores de proteção. A agricultura atual dispõe de sementes mais resistentes, irrigação, agricultura de precisão, previsões meteorológicas mais avançadas e ferramentas digitais capazes de orientar o plantio e o manejo.

Os estoques globais de alguns alimentos e a diversificação dos países exportadores podem ajudar a compensar perdas localizadas. Isso reduz a possibilidade de que uma adversidade regional se transforme automaticamente em crise generalizada de abastecimento.

O desafio para o produtor será transformar as previsões climáticas em decisões práticas: escolher corretamente a janela de plantio, revisar o manejo do solo, proteger as lavouras contra doenças e avaliar mecanismos de seguro e comercialização.

No campo, previsão meteorológica não evita o fenômeno, mas reduz a improvisação. E, diante de um El Niño potencialmente forte, planejamento pode representar a diferença entre administrar o risco e contabilizar o prejuízo.

Fontes: Inmet, Organização Meteorológica Mundial, IBGE e Reuters.

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